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  • Marina Carli

O lado amargo do chocolate

Updated: Apr 28

Estamos na era da transparência, buscando cada vez mais informações para saber do onde vêm o que consumimos, principalmente quando o assunto é alimentação.


O problema é que às vezes descobrimos coisas que não são tão fáceis assim de serem digeridas.


Para a maioria de nós o chocolate é visto como alimento que nos traz prazer, mas a verdadeira história é que nossos momentos de prazer são na maioria das vezes pagos com miséria, violência e exploração.



Muitos consomem e apreciam o chocolate, mas poucos sabem de onde o chocolate vem, começando pelo o fruto de cacau. Primeiramente, é importante saber que o cacau cresce apenas em certas latitudes, ou seja, precisa de um clima específico. Portanto, não existe muito lugares onde o cacau é bem cultivado. Apesar da América do Sul ter sua parcela na produção de cacau, o maior produtor (responsável por 60% do cacau mundial) é a África Ocidental, especialmente Costa do Marfim e Gana.


Sabe-se que a indústria do cacau é uma das indústrias mais ricas do mundo, ganhando em torno de US$ 100 bilhões por ano, porém é um sistema muito injusto e insustentável. É um sistema de pirâmide, onde o agricultor se encontra na base dela e no outro extremo da pirâmide estão as mais poderosas empresas de chocolate, são elas que definem e ditam as regras de todo o mercado de chocolate.

Na Costa do Marfim, país responsável por 40% da produção mundial, a indústria de cacau emprega praticamente 2/3 da população do país, o que resulta em um PIB de 15%. Cerca de 30 milhões de africanos dependem desse dinheiro para sua sobrevivência, porém sobreviver com menos de 1 dólar por dia resulta em uma qualidade de vida precária, sem acesso a água potável, energia elétrica, entre diversos outros problemas.


Luciana Monteiro é Engenheira de Alimentos e faz parte dos que buscam por um sistema alimentar mais justo, ético e sustentável.






O preço pago pelo cacau é controlado pelos mercados internacionais, em Londres e em Nova Iorque. O preço é definido a cada ano e em 2018, o valor era de US$ 1,34/kg, o problema é que cada árvore produz apenas um quilograma por safra, resultando em menos de US$ 200 por ano, valor bem longe de um salário digno.


Outra vertente desse problema surge devido ao isolamento de pequenos produtores. Muitas vezes eles não têm escolha para quem vender o seu cacau, sendo forçados a vender abaixo do preço ao produtor.


A extrema pobreza dos produtores de cacau pode levá-los a medidas desesperadas. Em 2000, as consequências dessa pobreza foram expostas no documentário britânico “Slavery: a global investigation”, onde foram relatadas condições de escravidão, tanto de adultos como de crianças, na produção de cacau. O problema se estende a questões de trabalho ilegal pesado, como o tráfico, onde mais de 30.000 crianças são traficadas para trabalham nas fazendas de cacau.


Para muito produtores de cacau, a solução para a pobreza é produzir cada vez mais cacau, porém a solução de um problema pode gerar outro: desmatamento. E sendo um agricultor pobre, se você tiver que escolher entre proteger a floresta e alimentar a sua família, então você não tem uma escolha.


Há sempre possibilidade de mudanças, não que sejam fáceis, mas são possíveis e cada vez mais vemos empresas e pessoas dedicadas a fazerem essa realidade acontecer e criarem um sistema mais justo.


Uma dessas empresas, a holandesa “Tony’s Chocolonely” foi fundada buscando por um chocolate mais ético e com a promessa de que o chocolate seria 100% livre de trabalho escravo. Os fundadores dizem “Se queremos acabar com a escravidão na cadeia de cacau, temos que olhar para o sistema como um todo. Nós conhecemos de perto o grupo de produtores com quem negociamos.” Porém, para essas mudanças terem um grande impacto precisam ser expandidas para uma larga escala. Foi quando em 2012, Tony fez uma parceria com a maior fábrica de chocolate do mundo: Barry Callebaut. Sabendo que são as grandes empresas que moldam o mercado, se elas decidirem fazer o certo, estaremos na direção certa.


Não precisamos deixar de lado os momentos de prazer e indulgência que o chocolate nos traz, mas precisamos sim, cada vez mais pensar e repensar no que consumidos e nos impactos que eles geram e não só na nossa saúde, mas nos impactos socioeconômicos, políticos e ambientais. Sabendo realmente de onde vêm seu chocolate, fica muito mais fácil saboreá-lo.


Fontes:

  1. Episódio “Bitter Chocolate” do documentário “Rotten” disponível na Netflix.

  2. "Child Labour Cacao Production" - Raconteur - Disponível em: https://www.raconteur.net/business-innovation/child-labour-cocoa-production

  3. Tony's Chocolonely - Site Oficial - Disponível em: https://tonyschocolonely.com/int/en

Marina Carli


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